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Quando o self se fragmenta: uma leitura psicanalítica do borderline à luz de Zanarini et al. (2009)

  • CARLOS MONTE
  • 9 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

Dessa vez, vou me valer de um estudo que considero bastante importante na análise do transtorno de personalidade borderline, por tal razão, talvez pareça um pouco mais técnico que os demais artigos que desenvolve para o site.


Sabemos que há pessoas que vivem como se estivessem sempre à beira de si mesmas.

Não é uma metáfora: é uma sensação real — a de que algo dentro se rompeu, e o que restou são partes que ainda tentam se reconhecer como um “eu”. O sujeito borderline vive nesse território movediço, entre o impulso de se fundir e o medo da dissolução, entre o desejo intenso de ser amado e a angústia insuportável de ser abandonado.


Na clínica, esse self que se fragmenta aparece não apenas nas palavras, mas nos silêncios. Ele surge no olhar que pede socorro e, ao mesmo tempo, desafia o outro a suportar o caos que vem junto. É um sofrimento que se expressa em ato, como se o corpo dissesse o que a palavra não consegue conter. E é aí que a escuta psicanalítica se faz urgente — uma escuta que reconhece, mais do que o sintoma, o sujeito que tenta existir no meio da ruptura.


Mas essa experiência, que na clínica se desenha em gestos e afetos, também foi observada no campo empírico.


Em 2009, Mary C. Zanarini, Jolie L. Weingeroff e Frances R. Frankenburg, pesquisadoras do McLean Hospital (EUA), publicaram no Journal of Personality Disorders o estudo intitulado Defense Mechanisms Associated With Borderline Personality Disorder.


Na ocasião, foram avaliados 290 pacientes com diagnóstico criteriado de Transtorno de Personalidade Borderline e 72 pacientes com outros distúrbios de personalidade. Utilizando o Defense Style Questionnaire (DSQ) — instrumento que mede estilos e mecanismos de defesa —, as autoras identificaram algo que a psicanálise já pressentia há décadas: as defesas que sustentam o borderline são de natureza primitiva, como se o psiquismo ainda não tivesse conseguido consolidar um “eu” suficientemente coeso.


Os resultados mostraram que pessoas com esse diagnóstico apresentavam escores significativamente mais altos em mecanismos como acting out, projection, splitting, emotional hypochondriasis e projective identification — defesas ligadas à imagem distorcida de si e do outro. Em termos psicanalíticos, estes são movimentos que visam proteger o self da dor, mas o fazem às custas da integração. É o “eu” que, para sobreviver, precisa se dividir.


Zanarini e suas colegas trouxeram, assim, uma evidência concreta para o que se vê na experiência clínica: a oscilação constante entre idealização e desvalorização, o amor que se transforma em raiva, a dependência que se converte em fuga. São expressões de um mesmo funcionamento defensivo — uma tentativa desesperada de manter alguma continuidade interna.


Na escuta psicanalítica, essa fragmentação não é vista como falha, mas como linguagem.

Cada explosão emocional, cada gesto de afastamento, cada vazio profundo é uma forma — às vezes a única possível — de dizer “eu existo, mas não sei como”. É a fala de um self que não encontrou ainda o outro que possa sustentá-lo sem julgá-lo, sem abandoná-lo, sem invadi-lo.


Trabalhar com pacientes borderline exige uma ética do cuidado que ultrapassa o diagnóstico. Como lembra a psicanálise, não se trata apenas de interpretar, mas de sustentar o espaço da relação, o “holding” de que falava Winnicott, onde o sujeito possa experimentar que sobreviver ao vínculo é possível. E isso só se constrói com presença, paciência e continuidade — pilares que todo psicanalista deve cultivar diariamente.


Ao acolher o sofrimento borderline, o psicanalista não oferece respostas, mas presença: uma escuta que não se apressa, que não teme o caos e que reconhece na defesa não apenas uma resistência, mas uma forma de sobrevivência. E talvez seja aí que a ciência e a psicanálise se encontram — quando um estudo empírico como o de Zanarini et al. (2009) confirma, com números e escalas, o que o olhar clínico já sabia: que por trás do comportamento impulsivo e do medo do abandono há um sujeito que tenta, a seu modo, reunir as partes de um self em busca de um nome, de um contorno, de um outro que o reconheça.


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Referência

Zanarini, M. C., Weingeroff, J. L., & Frankenburg, F. R. (2009). Defense Mechanisms Associated With Borderline Personality Disorder. Journal of Personality Disorders, 23(2), 113–121. https://doi.org/10.1521/pedi.2009.23.2.113


Evelyn Gomes Barbosa (CRP 06/143.553) é psicóloga e psicanalista formada pela UNESP e pelo Instituto de Psicanálise de Bauru, com atuação no CAISM/UNIFESP e no Amborder - referência nacional em borderline.


www.psicoevelynbarbosa.com.br


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