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Quando procurar ajuda?

1 de dez. de 2025
5 min de leitura

Reflexões Clínicas Sobre a Depressão e a Busca por Tratamento


Por Evelyn Gomes Barbosa — Psicóloga e Psicanalista


Em minha prática clínica, encontro com frequência um fenômeno que atravessa silenciosamente a vida de muitas pessoas: a demora em buscar ajuda psicológica. É algo que observo desde os primeiros anos de atendimento. Muitas vezes, recebo alguém carregando um sofrimento antigo, consolidado, e percebo — com empatia — que poderia ter chegado antes. Esse é um dos lamentos mais comuns na clínica. O outro é quando vejo, claramente, a coragem que faltou: não por fraqueza, mas porque admitir que precisamos de cuidado ainda é, para muitos, um ato imenso.


Há ainda um terceiro elemento: o ambiente. Família, amigos, colegas de trabalho ou círculos religiosos podem reforçar, mesmo sem intenção, a ideia de que “é só uma fase”, “é falta de ocupação” ou “coisa da cabeça”. Assim, a pergunta sobre quando alguém demora a buscar ajuda não tem resposta simples. Mas podemos pensar em alguns extremos que aparecem frequentemente.


Entre os que nunca procuram e os que procuram rápido demais


De um lado, há aqueles que nunca buscam tratamento. Integram o sofrimento ao seu modo de vida, como se a depressão fosse apenas uma característica moral, um temperamento difícil, ou até mesmo uma provação espiritual. É como se o psicológico não tivesse dignidade própria — como se fosse apenas uma fragilidade que se deve suportar em silêncio.


De outro lado, há quem procure ajuda ainda cedo, identificando-se de forma imediata com qualquer descrição clínica que encontre. O mal-estar difuso da contemporaneidade é, nesses casos, rapidamente preenchido por um nome, um rótulo, uma categoria que oferece um sentimento de pertencimento. Esses autodiagnósticos, por vezes apressados, podem ajudar a reconhecer aspectos negligenciados de si — mas também podem confundir, gerar ansiedade, estimular a medicalização inadequada ou levar a caminhos que desviam o sujeito de um cuidado consistente.


A depressão e o paradoxo da ação


Entre esses extremos, há algo próprio da depressão que merece atenção: ela mina exatamente os recursos necessários para buscar ajuda. Christian Dunker expressa isso com precisão ao afirmar:


“Ao contrário de outras afecções que, quando nos fazem sofrer, nos despertam maior interesse ou preocupação para mudarmos, a Depressão ataca os recursos necessários para isso. Daí que muitos casos verdadeiros de depressão surgem como ‘achados clínicos’, em meio a uma investigação diagnóstica de outra natureza.” (DUNKER, 2021, p. 131)



Esse ponto é fundamental: quanto mais o quadro se agrava, menores são as forças psíquicas para mover-se em direção ao cuidado. É por isso que tantas pessoas só chegam até nós depois de anos de sofrimento.


Quando o corpo denuncia o que a alma silenciou


Na clínica, diversos quadros depressivos aparecem primeiro em consultórios que não os da saúde mental. Um caso exemplar é o de J.M., que acordou no meio da madrugada com uma arritmia cardíaca. Assustado, buscou um cardiologista. Exames, monitoramentos, avaliações — tudo absolutamente necessário. Com os resultados normais, o médico recomendou que ele investigasse também o aspecto emocional. Foi assim que J.M. chegou à terapia.


Esse caminho é mais comum do que imaginamos. Outros exemplos:


Ortopedistas frequentemente se deparam com quadros depressivos associados à fibromialgia.


Cardiologistas convivem com depressões ansiosas que imitam sintomas cardíacos.


Dermatologistas encontram sintomas depressivos associados a quadros de alopécia.


Pneumologistas percebem depressões em pacientes com infecções de repetição.



Há pessoas que se acostumam tanto a viver com determinados estados afetivos que passam a entendê-los como parte natural da vida — quase como as mudanças de clima. “Depressão de inverno”, variações sazonais, períodos de baixa energia, alterações de sono, apetite diminuído ou aumentado… tudo parece vir “de fora”, como se fosse o tempo: faz sol, chove, esfria — e simplesmente aceitamos.


Mas aceitar não é o mesmo que compreender. E compreender não é o mesmo que tratar.


Autodiagnóstico, cultura e risco


Vivemos um tempo em que os critérios de transtornos psicológicos circulam com facilidade em redes sociais, vídeos curtos, relatos pessoais de influenciadores. É verdade que isso ampliou o acesso e diminuiu o estigma — mas também popularizou o autodiagnóstico.


Oscilações de apetite, de energia, de sono, dificuldades de concentração ou de tomada de decisão são experiências humanas universais. Embora façam parte dos critérios de transtornos depressivos mais brandos, isso não significa que qualquer pessoa que passe por eles se enquadre em um diagnóstico clínico. Ao contrário: o diagnóstico exige avaliação cuidadosa, criteriosa, contextualizada.


O risco de confundir o sofrimento comum da vida com um transtorno mental não é menor do que o risco de ignorar um quadro grave. Entre um extremo e outro, há sempre a necessidade de um olhar profissional.


E é justamente aqui que a psicanálise e a clínica psicológica oferecem seu espaço: um lugar para pensar o sofrimento sem reduzi-lo a rótulos, sem antecipar diagnósticos, sem neutralizar a singularidade do sujeito.


Entre depressão e borderline: atravessamentos possíveis


Embora este texto se dedique à depressão, é impossível ignorar como, na clínica, alguns quadros se imbricam. Pessoas com traços borderline, por exemplo, frequentemente vivem intensas oscilações afetivas acompanhadas de sentimentos de vazio, impulsividade e dificuldade de regulação emocional. Esses estados podem mascarar ou coexistir com um quadro depressivo — e, às vezes, a depressão aparece exatamente quando o sujeito já está esgotado de tentar lidar com tamanha instabilidade interna.


Reconhecer essas nuances é parte essencial do cuidado.


Por fim: quando é hora de procurar ajuda?


A resposta não é matemática. Mas há alguns sinais importantes:


quando o sofrimento começa a organizar silenciosamente a vida;


quando a energia para ações simples diminui;


quando o corpo fala mais do que conseguimos escutar;


quando o diagnóstico tomado “emprestado” não se sustenta ao longo do tempo;


quando a solidão emocional se aprofunda;


quando há medo, vergonha ou resistência em pedir ajuda.



Buscar tratamento não deveria ser um gesto extremo — deveria ser uma possibilidade natural de cuidado. E, para isso, é essencial divulgar que existe tratamento, sim, e que ninguém precisa atravessar tudo sozinho. Ao mesmo tempo, é preciso cuidado com caminhos rápidos demais: automedicação, vídeos que prometem soluções instantâneas, autodiagnósticos que substituem a escuta profissional. Eles podem aliviar em um primeiro momento, mas frequentemente postergam o problema.


O tratamento psicológico — seja pela psicanálise, seja por outras abordagens — é um espaço em que a dor encontra palavra, onde aquilo que parecia imutável pode ser simbolizado e transformado. É um caminho que exige tempo, responsabilidade, delicadeza e, acima de tudo, presença.


E esse é o compromisso que assumo com cada paciente que chega até mim: construir, juntos, um espaço de cuidado que respeite a singularidade de sua história e, sempre que necessário, articule-se com o trabalho do psiquiatra e de outros profissionais de saúde. Saúde mental é, sempre, um trabalho conjunto.



Referência bibliográfica


DUNKER, Christian. Uma Biografia da Depressão. São Paulo: Paidós, 2021.

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Evelyn Gomes Barbosa (CRP 06/143.553) é psicóloga e psicanalista formada pela UNESP e pelo Instituto de Psicanálise de Bauru, com atuação no CAISM/UNIFESP e no Amborder - referência nacional em borderline.



Agende uma consulta, ela terá o prazer em conduzir uma caminhada para que você possa compreender suas emoções, enfrentar suas dores e reencontrar o equilíbrio.



 
 
 

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