Identificando o Transtorno de Pânico; quando o estranho emerge em nós mesmos.
Por Evelyn Gomes Barbosa – Psicóloga e Psicanalista
Quando atendo pacientes aflitos por crises de pânico, quase sempre encontro, por trás do sofrimento intenso, uma pergunta silenciosa e angustiada: “O que está acontecendo comigo?” Essa busca por uma explicação concreta, por um diagnóstico, costuma surgir antes de qualquer compreensão mais profunda — antes mesmo de haver nome ou imagem para o que assombra. O pânico irrompe como um evento abrupto, desorganizador, algo que escapa a qualquer tentativa imediata de simbolização. Assusta, desampara e, muitas vezes, gera um sentimento de “não-normalidade”, como se a própria identidade vacilasse diante de algo emergente, interno, ameaçador.
Esse movimento — de algo profundamente familiar reaparecer de modo irreconhecível e angustiante — foi explorado por Sigmund Freud no ensaio O Inquietante (Das Unheimliche). Freud nos recorda que muitas vezes o que nos aterroriza não é algo totalmente novo, mas algo que já existia em nosso psiquismo e, por razões internas ou externas, foi encoberto — até ressurgir de forma brotada, desorganizada, assustadora. Esse tropeço entre familiar e estranho pode ser precisamente o que desencadeia o sofrimento intenso do pânico.
No trabalho clínico com transtorno de pânico — quando acolhido na escuta — esse “estranhamente familiar” se revela: um conteúdo reprimido, uma angústia que nunca foi dita, um desejo não reconhecido, recalcado. É nele que muitas vezes encontramos o primeiro fio de possibilidade de reconstrução, de simbolização, de retorno a si mesmo.
Quando a vida não cabe mais nas formas antigas
Com frequência percebo que as crises de pânico chamam à tona algo essencial: a vida deixou de caber nas velhas formas — papéis, expectativas, deveres — e o sujeito, mesmo sem compreender, sente que precisa de outra configuração para existir. As demandas foram muitas, mas os recursos internos para reorganizar-se não apareceram a tempo.
Por anos, o indivíduo cumpre funções — de mãe, pai, trabalhador, parceiro — mas não vive de fato, não habita a própria vida com plenitude. E o corpo, de modo brutal, grita: “algo não está sendo vivido de verdade”. O pânico pode ser essa voz do corpo, denunciando uma vida interior desorganizada e assombrada por um vazio silencioso.
E nessa hora, o convite da análise se torna urgente: não para “curar” sintomas, mas para permitir que o sujeito retome seu contato com seu próprio centro — restabeleça sua auto-vivência, reconheça e nomeie o que habitava nas sombras.
O viver criativo como antídoto: de volta a si mesmo
Aqui é que a contribuição de Donald W. Winnicott — especialmente a partir de O Brincar e a Realidade — se mostra particularmente valiosa. Ele propõe o conceito de “viver criativo”: não se refere a grandes feitos ou produção artística, mas à capacidade de viver com sentido, autenticidade, presença — dignificando o cotidiano através da própria subjetividade.
Quando alguém perdeu o contato com esse viver criativo — seja por pressão social, papéis impostos, exigências externas —, a existência tende a enrijecer, a se cristalizar em obrigações alheias, em identidades que não foram escolhidas. A vida vira um fardo, e o sujeito se sente confinado. Nesse contexto, o pânico pode surgir como um chamado interno para reencontrar aquilo que foi perdido: um modo próprio de existir, de sentir, de desejar.
A análise, então, torna-se o espaço onde se pode permitir — aos poucos — recuperar esse contato. Onde, no lugar do vazio e do desamparo, pode emergir uma subjetividade viva, criativa, capaz de pulsar e dar sentido ao existir.
Psiquiatria e psicanálise: a aliança que acolhe corpo e alma
Sei que muitos pacientes resistem à ideia de medicação: para eles, buscar auxílio psiquiátrico equivale a admitir que algo “está errado demais” — que não somos normais. Mas, na prática clínica com transtorno de pânico severo, quando as crises se repetem e paralisam o cotidiano, há valor real em combinar tratamento medicamentoso e análise.
A medicação pode dar estabilidade — reduzir o tormento das crises — e permitir que o sujeito se sinta menos invadido pelo sintoma. A análise, por sua vez, oferece o espaço simbólico para nomear o que estava latente, para reintegrar a história, os desejos, os enterramentos psíquicos. Juntas, essas abordagens permitem não só o alívio, mas a possibilidade de reorganização subjetiva e reinvenção do modo de viver.
Porque, muitas vezes, o pânico não é inimigo a ser exterminado — é um pedido de reencontro com a própria vida, com o próprio desejo, com o próprio Eu.
Quando o pânico fala — talvez ele peça para sermos mais nós mesmos
O que chamamos de “pânico” quando vem correndo e grita, muitas vezes, carrega consigo uma mensagem essencial: algo em nós não está sendo vivido com verdade. E, talvez por isso, o corpo e o afeto respondam na forma de mal-estar, de medo, de limitação existencial.
Se acolhido em análise, se escutado com respeito — o pânico pode se tornar um ponto de virada: o início de um projeto de vida diferente, um retorno ao próprio centro, uma reinvenção possível de existir com presença, significado e pertencimento.
E quando o sujeito aprende a respirar devagar, olhar para dentro, nomear o que habita a alma — aprende, enfim, a viver.
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Referências bibliográficas em destaque
FREUD, Sigmund. O Inquietante (Das Unheimliche). In: Obras completas, v. 14. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
WINNICOTT, D. W. (Donald Woods). O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
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Evelyn Gomes Barbosa (CRP 06/143.553) é psicóloga e psicanalista formada pela UNESP e pelo Instituto de Psicanálise de Bauru, com atuação no CAISM/UNIFESP e no Amborder - referência nacional em borderline.
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