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O pensamento nasce no encontro: Vygotsky e a construção social da mente

  • CARLOS MONTE
  • 25 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura


Vamos começar com um exemplo, dessa vez.

Imagine a cena: uma criança de dois anos decide que, hoje, ela é totalmente capaz de vestir seus próprios sapatos. Ela puxa o calçado, vira ao contrário, enfia o pé no lugar errado, fica frustrada, tenta de novo — e nada. Até que um adulto se aproxima, não para “fazer por ela”, mas para fazer com ela. Ele vira o sapato na direção correta e, com um simples gesto, indica o movimento. A criança observa, tenta imitar, falha de novo, ajusta. Aos poucos, o gesto do adulto deixa de ser um auxílio externo e passa a funcionar dentro dela como orientação interna.

No dia seguinte, ela experimenta novamente — e dessa vez, consegue.

Esse pequeno acontecimento cotidiano já revela algo profundo: a mente humana não nasce pronta; ela se torna. E se torna com o outro.



Lev Vygotsky (1896–1934): o pensamento como fruto do social


Certamente você já ouviu falar de nomes importantes como Piaget ou Kohlberg. Mas hoje, nos interessa especialmente Lev Vygotsky, psicólogo bielorrusso, que compreendeu como poucos que o pensamento humano é, antes de tudo, um produto social.


Para Vygotsky, a aprendizagem não acontece dentro de um vácuo interior, nem é apenas maturação biológica. Ela nasce das interações — aquelas trocas com pais, professores, cuidadores, colegas, todos que já dominam certos conhecimentos e práticas.


É por meio dessas relações que a criança desenvolve linguagem, raciocínio, autonomia e, em última instância, identidade.



A Zona de Desenvolvimento Proximal: onde o humano cresce


O conceito mais conhecido de Vygotsky é a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP).

Ela corresponde ao intervalo entre:


aquilo que a criança já é capaz de fazer sozinha (desenvolvimento efetivo) e


aquilo que ela pode realizar com orientação, colaboração ou apoio de alguém mais experiente (desenvolvimento potencial).


Ou seja: é nesse entre que a mente floresce.

O aprendizado começa de fora para dentro.


Como escreveu Moheb Constandi, “as crianças não aprendem em um vácuo social, mas interagindo e observando os outros”.


Quando uma criança aprende a apontar para um objeto fora de seu alcance, ela não aprende apenas um gesto. Ela aprende a participar de um mundo compartilhado de significados. O gesto nasce no corpo do outro, é imitado, internalizado, e depois executado de maneira autônoma.



E por que isso importa hoje?


Porque a educação — e a clínica psicológica — não podem ser pensadas como processos solitários.


Vygotsky questionou a própria lógica dos testes padronizados, como o QI. Esses instrumentos mostram somente o que a criança consegue fazer sozinha, mas não revelam suas verdadeiras capacidades, que emergem justamente com apoio, dentro de um contexto relacional. E é aí que mora a riqueza humana.


Essa visão continua atual — especialmente para profissionais que, na psicanálise, procuram, com seus pacientes, a síntese capaz resultar em um outro comportamento, haja vista a importância do tema para portadores do transtorno do espectro bordeline.



O social também estrutura o psíquico


A psicanálise sabe bem que o sujeito se constitui nas relações.


Para pacientes borderline, que muitas vezes experienciam um mundo afetivo fragmentado, a presença de um outro estável — um terapeuta que oferece continência, significado e interpretação — funciona como esse “apoio externo” que, pouco a pouco, pode ser internalizado.


O que Vygotsky chama de zona de desenvolvimento proximal, a psicanálise vê como a possibilidade de criar espaço psíquico para elaborar afetos e construir pensamento próprio.


O adulto que orienta a criança não é muito diferente do analista que ajuda o paciente borderline a nomear emoções, regular impulsos e formar novas articulações internas.

É no encontro que algo novo emerge.


Aprender é se tornar humano


A grande contribuição de Vygotsky está exatamente aí: ao observar que o desenvolvimento intelectual é um processo relacional, ele mostra que ninguém se torna autônomo pela solidão, mas pela convivência.


Participamos de atividades coletivas, ouvimos explicações, observamos gestos, tentamos imitar, falhamos, tentamos de novo.

E assim, aos poucos, aquilo que antes existia somente na relação passa a viver dentro de nós.


É nesse movimento que a criança — e também o adulto em processo terapêutico — avança em direção à autossuficiência.



Para concluir: o pensamento é sempre um diálogo


Talvez hoje soe óbvio afirmar que aprendemos melhor em colaboração.

Mas Vygotsky enxergou, muito antes de ser moda, que é pela troca que o ser humano se transforma.


E, enquanto houver espaço de diálogo — seja em uma sala de aula, seja em um consultório de psicanálise — sempre haverá possibilidade de desenvolvimento, reinvenção e vida nova.


_________________________


Evelyn Gomes Barbosa (CRP 06/143.553), reside em São Paulo, é psicóloga e psicanalista formada pela UNESP e pelo Instituto de Psicanálise de Bauru, com atuação no CAISM/UNIFESP e no Amborder - referência nacional em borderline.



Agende uma consulta, ela terá o prazer em conduzir uma caminhada para que você possa compreender suas emoções, enfrentar suas dores e reencontrar o equilíbrio.



 
 
 

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