O erro de atribuição fundamental — um espelho do olhar
- CARLOS MONTE
- 13 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Por Evelyn Gomes Barbosa.
É curioso como somos rápidos em julgar. Quando Antônio nos corta no trânsito, logo pensamos: “que sujeito grosseiro, impaciente”. Mas, se somos nós que cortamos alguém, talvez digamos que estávamos atrasados, distraídos, cansados. O mesmo ato — duas explicações. Para o outro, atribuímos caráter; para nós, contexto. Esse descompasso entre o olhar que lançamos ao outro e o que reservamos a nós mesmos é o que a psicologia chama de erro de atribuição fundamental. Ele nos faz crer que os comportamentos alheios brotam da essência das pessoas, enquanto os nossos seriam apenas respostas às circunstâncias do mundo.
“Se outras pessoas estão atrasadas para um compromisso, você imediatamente supõe que elas não sabem administrar seus horários? O erro de atribuição fundamental sugere que tendemos primeiro a colocar a culpa no comportamento dos outros e não damos espaço para circunstâncias atenuantes”, argumenta Tom Stafford.
A atribuição é um processo psicológico: é através dela que discernimos as causas das coisas. Quando cometemos o erro de atribuição — ou erro de atribuição fundamental — estamos praticando a tendência de imputar o comportamento de alguém à sua natureza individual, ignorando as circunstâncias que a levaram a agir de determinado modo. Talvez seja, nesse ponto, que o conceito toque algo da empatia: a capacidade de supor que o outro também carrega contextos invisíveis.
Essa expressão, erro de atribuição fundamental, foi criada pelo psicólogo Lee Ross, que demonstrou em seus experimentos algo intrigante: indivíduos que liam, a pedido do pesquisador, um discurso sobre determinado tema político, eram logo percebidos pelos observadores como partidários daquelas opiniões — mesmo quando sabiam que estavam apenas lendo um texto solicitado. A mente humana parece preferir a explicação fácil: “ele fala assim porque pensa assim”.
De outra maneira, ao julgar a nós mesmos, invertemos o viés. Tendemos a exagerar o peso das circunstâncias e a minimizar a participação de nossas próprias disposições. Eu posso dizer: “não compareci ao evento porque o pneu do carro furou”; mas se é João quem falta, concluo que “ele não se importava tanto assim”. O mesmo ocorre com opiniões e posicionamentos: as minhas seriam “racionais e dignas”, as do outro, “fruto de preconceito”.
É nesse ponto que a psicanálise lança um olhar mais profundo.
A terapia cognitivo-comportamental, por exemplo, se dedica com rigor e eficácia a modificar o estilo de explicação que o sujeito utiliza — ajudando-o a reconhecer e corrigir os padrões de atribuição que distorcem sua percepção da realidade. Já o psicanalista não busca corrigir, mas compreender o desejo inconsciente que organiza essa forma de julgar. O que faz alguém insistir em culpar-se sempre, ou culpar sempre o outro? O que se repete nesse gesto?
Todos sabem que minha atenção tem se voltado para pessoas com transtorno de personalidade Borderline, e percebo que essa oscilação pode ser especialmente intensa: ora o outro é idealizado, ora totalmente desvalorizado; ora a culpa é insuportável, ora é projetada. A análise se torna, então, um espaço para escutar a dinâmica inconsciente dessas atribuições — onde o erro não é apenas cognitivo, mas emocional, pulsional, parte da própria trama da identidade. Existe uma necessidade que que o sujeito comece a reconhecer que, mais do que compreender o porquê dos outros, talvez precise olhar para o que, dentro de si, o leva a interpretar o mundo desse modo.
O erro de atribuição fundamental é um clássico da psicologia, mas é também uma janela para a vida psíquica. Ele nos lembra que, mesmo que sejamos criaturas conscientes e pensantes, temos acesso direto apenas às nossas próprias intenções, valores e justificativas — enquanto os outros permanecem sempre vistos de fora, através de seus atos. Julgamo-los pelo comportamento; a nós, pelas intenções. E assim, nesse descompasso inevitável, habita o equívoco humano que a psicanálise tenta iluminar: o de acreditar que enxergamos o outro, quando na verdade, vemos apenas o reflexo de nós mesmos.
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Evelyn Gomes Barbosa (CRP 06/143.553) é psicóloga e psicanalista formada pela UNESP e pelo Instituto de Psicanálise de Bauru, com atuação no CAISM/UNIFESP e no Amborder - referência nacional em borderline.
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Excelente leitura ! Super me identifiquei com este post. Parabéns:)