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Entre Expectativa e Experiência: O Efeito Placebo e o Efeito Nocebo.

  • CARLOS MONTE
  • 22 de out. de 2025
  • 2 min de leitura


Por Evelyn Gomes Barbosa


Você já ouviu falar do efeito placebo? Mais do que um termo de laboratório, ele revela algo profundo sobre como a mente e o corpo se entrelaçam. Durante a Segunda Guerra Mundial, o anestesiologista americano Henry Beecher percebeu algo curioso: soldados feridos aguardando voltar para casa apresentavam menos dor do que o esperado. A razão? A expectativa de retorno ao lar transformava a experiência de sofrimento em algo parcialmente suportável.


O que isso nos ensina? Que expectativa e contexto estão sempre presentes em nossas respostas às doenças e tratamentos. O efeito placebo age pela mera expectativa de que o cuidado recebido será benéfico. Em contextos clínicos, drogas como o diazepam ou a morfina não apenas agem pelo princípio ativo, mas também pelo potencial amplificador que a consciência do paciente confere. Sabendo que o remédio atua, a mente contribui para o efeito terapêutico; sem essa expectativa, a eficácia pode ser diminuída. Estudos mostram que a ação de analgésicos naturais do cérebro — os opioides endógenos — é crucial nesse fenômeno. Bloqueá-los, por exemplo, com naloxona, pode anular o efeito placebo.


Essa relação entre mente e corpo dialoga com o que se chama de psicologia positiva: olhar pelo lado bom das coisas, pelo potencial do pensamento positivo. Mas há quem critique essa abordagem. A escritora e ativista Barbara Ehrenreich, em seu livro “Sorria: como a promoção incansável do pensamento positivo enfraqueceu a América”, alerta que a pressão para manter a positividade pode se tornar um fardo, sobretudo para pessoas que já enfrentam doenças graves. Isso nos leva a refletir: o efeito placebo é psicologia positiva, ou há aí uma tênue linha com o autoengano?


E, como em tudo na vida psíquica, há um reverso: o efeito nocebo. Enquanto o placebo atua pela expectativa de benefício, o nocebo surge quando a expectativa de dano se torna uma profecia autorrealizável. Sem qualquer causa física comprovada, o corpo pode manifestar desconforto apenas porque a mente acredita que algo lhe fará mal. É o lado sombrio da atenção ao que sentimos, lembrando que a expectativa, boa ou ruim, molda a experiência humana.


Na psicanálise, esses fenômenos nos lembram que o ser humano não reage apenas ao que é palpável, mas ao significado que atribui às situações. Cada tratamento, cada gesto de cuidado, cada palavra dita ou ouvida carrega consigo um potencial de efeito, positivo ou negativo. O que nos desafia é a consciência de que a mente não apenas percebe a realidade, mas a participa e transforma.


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Evelyn Gomes Barbosa (CRP 06/143.553) é psicóloga e psicanalista formada pela UNESP e pelo Instituto de Psicanálise de Bauru, com atuação no CAISM/UNIFESP e no Amborder - referência nacional em borderline.


Agende uma consulta, ela terá o prazer em conduzir uma caminhada para que você possa compreender suas emoções, enfrentar suas dores e reencontrar o equilíbrio.



 
 
 

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