top of page

Entre a dependência e o desamparo: notas sobre a estrutura borderline

  • CARLOS MONTE
  • 7 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

Introdução


O sujeito borderline apresenta uma organização psíquica particular, que se reflete na maneira como estabelece relações de objeto e vivencia suas emoções. Diferentemente da organização neurótica, centrada no conflito edípico e na triangularidade entre eu e figuras parentais, a estrutura borderline traz marcas de conflitos pré-edípicos, comuns às fases oral e anal, que carregam traços agressivos e idealizações. Nessa configuração, o eu ainda não se consolidou completamente, e os limites entre eu e não-eu frequentemente se confundem, gerando oscilação entre desejo de possuir, controlar e destruir o outro.


Como profissional, observa-se que essa dinâmica faz com que pequenos eventos interpessoais possam desencadear respostas intensas, exigindo do terapeuta uma presença sensível e consistente.



Mecanismos de defesa preponderantes do sujeito borderline


A clivagem ocupa posição central nos mecanismos defensivos do sujeito borderline. Trata-se da tendência de separar aspectos bons e maus do eu e do objeto, protegendo-se da ambivalência emocional e do conflito intrapsíquico que se torna intolerável.


Em nossa experiência, contudo, destacam-se alguns mecanismos defensivos relevantes, os quais enumeramos:


  1. Ideação primitiva: percepção do outro ou de si como inteiramente bom ou totalmente mau, com exagero patológico das qualidades ou defeitos.


  1. Onipotência e desvalorização: sensação de grandeza e desqualificação do outro, projetando nele partes indesejadas do eu.


  1. Identificação projetiva: externalização de aspectos agressivos, fazendo com que o outro seja vivido como perigoso ou vingativo.


  1. Denegação: negação de sentimentos ou fatos que são emocionalmente dolorosos, vividos com indiferença aparente.



Kernberg, um dos autores que mais se debruçaram sobre o transtorno de personalidade bordeline, fez uma avaliação pontual dessa questão, explicando que esses mecanismos refletem fraquezas estruturais do ego, dificuldades de integração do superego e relações objetais caóticas, sendo consequências diretas da difusão de identidade e da predominância de operações defensivas primitivas. Eis o que destacamos em nosso estudo sobre o tema:


“A organização borderline de personalidade também se mostra em características estruturais secundárias, tais como em manifestações inespecíficas de fraqueza do ego (falta de controle de impulsos, falta de tolerância à ansiedade e falta de canais de desenvolvimento de sublimação), na patologia do superego (sistema de valores imaturos, exigências morais internas contraditórias ou até mesmo características antissociais) e nas relações objetais crônicas e caóticas, que são uma consequência direta da difusão de identidade e da predominância de operações defensivas primitivas.” (KERNBERG, 199, p. 17).


Na prática clínica, nota-se que esses mecanismos aparecem de forma dinâmica e simultânea, sendo percebidos na oscilação entre afeto intenso e rejeição abrupta de pessoas próximas.


Angústias centrais: abandono e invasão


Ainda, vale esclarecermos que são dois os tipos de angústia que aparecem com maior frequência na experiência do sujeito borderline:


1. Angústia de abandono, da perda ou da separação: em que o paciente vive um medo profundo de perder o objeto ou uma parte de si, vivenciado mesmo quando o outro está presente, associado a sensações de dissolução ou morte psíquica.


2. Angústia de invasão pelo objeto: receio de ser invadido ou absorvido pelo outro, podendo surgir mesmo quando o objeto está distante, gerando fantasias de intrusão e ameaça à identidade.


Essas angústias refletem, como se nota, a fragilidade da estrutura psíquica, em que limites internos e externos são tênues, solúveis e constantemente desafiados. Na clínica, observa-se que essas experiências são vividas intensamente, mesmo quando não há ameaça real do ambiente externo — o que evidencia o quanto o sofrimento é genuíno e interno.


A necessidade incontornável da presença de outrem


O sujeito borderline, diante da carência de objetos internos suficientemente bons, busca nos objetos externos um ponto de apoio, mantendo relações baseadas mais em dependência do que em amor. Essa dependência reforça a necessidade constante da presença do outro.


Maranga (2002, p. 220) descreve:


> “Constituindo o modelo de relação agressiva aquele com o qual cresceu e com o qual se sente mais familiarizado, porque pouco amado desde sempre por quem mais importava sê-lo, conduz o borderline a distanciar-se do ciclo relacional amoroso (...) Deste modo, tal como no caso dos indivíduos psicóticos, assiste-se no borderline a um predomínio da agressividade sobre o amor e a uma dominância das forças destrutivas sobre o poder construtivo e criativo.”


Como é frequente observar na prática, essa dependência não se limita a um simples pedido de atenção; é uma necessidade profunda de reconhecimento, de ver o outro como presença reguladora do próprio mundo interno.


Estruturação precária do eu


O eu do sujeito borderline apresenta fragilidades significativas, que afetam sua adaptação e funcionamento emocional. A ausência de habilidades internas consistentes dificulta a mediação entre desejos, frustrações e relações interpessoais, tornando o indivíduo vulnerável a crises intensas e repetidas. Observa-se, na clínica, que mesmo pequenas frustrações podem gerar respostas desproporcionais, refletindo a fragilidade dessa estrutura.


História de vida e etiologia


A formação da estrutura borderline está frequentemente marcada por experiências precoces de inconstância de objeto. Relações parentais afetivamente indiferentes, hostis ou apenas aparentemente próximas geram padrões que se mantêm na vida adulta, contaminando os vínculos subsequentes e reforçando sentimentos de abandono e fragilidade.


Considerações finais


Esses elementos constituem os traços fundamentais da metapsicologia do sujeito borderline. Compreender essa estrutura é essencial para propor intervenções clínicas que promovam segurança, conforto e desenvolvimento de habilidades adaptativas.


Na prática clínica, o acolhimento, a consistência do enquadre e a paciência são fundamentais para que o sujeito borderline possa experienciar relações mais estáveis e gradualmente integrar aspectos bons e maus de si e do outro. Como psicóloga, nota-se que pequenas conquistas — um vínculo seguro, uma percepção de si menos fragmentada — podem gerar avanços significativos na autoestima e na capacidade de se relacionar, mostrando que, mesmo diante da instabilidade emocional, há espaço para crescimento e reconstrução.


REFERÊNCIAS


KERNBERG, O. Psicoterapia psicodinâmica de pacientes borderline. Porto Alegre: Artmed, 1991.

MARANGA, A.R. Organização bordeline. Aspectos psicodinâmicos. Análise psicológica, v.2. Lisboa, 2002.


Evelyn Gomes Barbosa (CRP 06/143.553) é psicóloga e psicanalista formada pela UNESP e pelo Instituto de Psicanálise de Bauru, com atuação no CAISM/UNIFESP e no Amborder - referência nacional em borderline. www.psicoevelynbarbosa.com.br


Agende uma consulta, ela terá o prazer em conduzir uma caminhada para que você possa compreender suas emoções, enfrentar suas dores e reencontrar o equilíbrio.



 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page