Borderline e agressividade: considerações psicanalíticas
- CARLOS MONTE
- 30 de jun. de 2025
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A agressividade é um dos traços mais marcantes do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), frequentemente expressa como explosões de raiva, impulsividade violenta e comportamentos autodestrutivos. Este artigo aborda a agressividade borderline sob uma perspectiva psicanalítica, explorando sua relação com a contrariedade, a dificuldade de simbolização dos afetos, as consequências psíquicas desses episódios e o manejo terapêutico necessário frente a esses quadros clínicos complexos.
1. Introdução
O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) apresenta manifestações comportamentais intensas, das quais a agressividade se destaca como expressão central do funcionamento psíquico comprometido. Embora frequentemente compreendida como mera explosão de raiva, na psicanálise a agressividade borderline é vista como um fenômeno estrutural, diretamente relacionado a falhas nos processos de simbolização e mentalização.
2. A agressividade como resposta à contrariedade
Pacientes borderline tendem a apresentar extrema dificuldade em lidar com limites impostos pelo outro ou pela realidade. Qualquer contrariedade ou frustração é vivida como ameaça de abandono ou humilhação, desencadeando reações agressivas contra quem for percebido como causador da dor psíquica.
Essa agressividade pode se manifestar com maior intensidade nos vínculos íntimos, mas também surge em situações cotidianas, envolvendo familiares, amigos, colegas de trabalho e até desconhecidos.
3. Impulsividade e explosões de raiva
A impulsividade é característica central no borderline e se evidencia em episódios de agressividade. Essas explosões de raiva são descargas imediatas de afetos intoleráveis, não elaborados ou simbolizados, levando a atos verbais ou físicos de violência.
Para observadores externos, tais reações podem parecer exageradas ou evitáveis, mas para o sujeito borderline são inevitáveis, uma vez que há falha no mecanismo de contenção psíquica. Em termos psicanalíticos, trata-se de um agir (acting out) como via única de expressão de conteúdos internos que não encontram representação mental.
4. Consequências psíquicas: culpa, arrependimento e autolesões
Após episódios agressivos, pacientes borderline costumam apresentar sentimentos de culpa, vergonha ou arrependimento profundo, vivenciando intenso sofrimento psíquico. Como forma de lidar com essa culpa e com a angústia insuportável, muitos recorrem a autolesões impulsivas, como cortes, arranhões ou queimaduras, que podem funcionar como:
Mecanismo de regulação emocional, trazendo alívio imediato;
Forma de sentir-se vivo, através da experiência concreta da dor física;
Expressão de auto-punição, quando a agressividade retorna contra o próprio corpo.
5. Consequências sociais e jurídicas da agressividade borderline
Essa agressividade borderline pode gerar consequências sociais graves. É comum que indivíduos com TPB:
Se envolvam em brigas de trânsito ou agressões em ambientes públicos;
Arrumem confusões em bares, festas ou jogos de futebol;
Tornem-se autores de violências domésticas, incluindo feminicídios em contextos de relacionamento;
Vivenciem abandono social, recaindo em uso de drogas, automutilações ou comportamento suicida.
Muitos chegam ao sistema prisional sem diagnóstico adequado, sendo rotulados apenas como pessoas agressivas ou perigosas, quando, na realidade, apresentam sofrimento psíquico profundo e necessidade urgente de manejo clínico especializado.
6. Reflexão psicanalítica: a agressividade primitiva segundo Bergeret
Para compreender essa dimensão primitiva da agressividade humana, Bergeret (1991) explica:
“A primeira estrutura mental eficiente na criança muito nova ainda não é uma pulsão erótica, mas uma manifestação instintiva brutal, sem amor nem ódio, marcada pela angústia e face de imagem ainda fluida do outro. A angústia de que não haja lugar ao sol para dois, que não haja lugar ao mesmo tempo para o mundo dos adultos que o cerca e para o sujeito frágil que vive confrontado com eles, sem ter outro recurso mental primitivo que não o dilema impiedoso do ele ou eu, do eles ou eu. É assim que se inicia o drama edipiano em todos os indivíduos.” (BERGERET, 1991, p. 203).
Esse trecho evidencia que a agressividade borderline não nasce de ódio consciente ou cálculo destrutivo, mas de uma angústia primordial de exclusão e aniquilamento, ancorada em experiências infantis precoces, quando o impulso vital de sobrevivência se expressa como violência bruta, anterior à constituição de erotismo ou vínculos amorosos estabilizados.
7. Manejo terapêutico da agressividade borderline
O manejo clínico da agressividade borderline exige escuta psicanalítica especializada, focada na compreensão do sentido inconsciente do ato agressivo, ao invés de apenas contê-lo.
7.1 Escuta e contenção
O primeiro passo envolve escuta empática e não julgadora, que permita ao paciente reconhecer e nomear seus afetos agressivos. Essa abordagem possibilita a criação de um espaço psíquico onde a agressividade possa ser simbolizada e gradualmente integrada.
7.2 Intervenção medicamentosa
Em casos de agressividade intensa, associada a impulsividade grave e risco de violência contra si ou contra outros, é necessária a intervenção medicamentosa psiquiátrica, visando estabilizar o humor e reduzir a impulsividade.
7.3 Trabalho psicoterapêutico contínuo
O tratamento psicoterapêutico deve incluir:
Exploração das fantasias de destruição e morte,
Elaboração dos sentimentos de humilhação, vergonha e abandono que precipitam a agressividade,
Construção de recursos internos de contenção, ampliando a capacidade de mentalização antes do agir.
7.4 Aliança terapêutica como ferramenta de manejo
A formação de uma aliança terapêutica estável é essencial, pois oferece ao borderline um modelo relacional seguro, onde a agressividade possa ser expressa, compreendida e trabalhada sem rupturas abruptas.
8. Conclusão
A agressividade no transtorno borderline não é apenas um traço comportamental, mas uma manifestação profunda de dor psíquica, marcada por angústias primitivas de exclusão, desamparo e aniquilamento. Seu manejo requer equipe multiprofissional, integração psiquiátrica e psicoterapêutica, além de uma escuta psicanalítica que compreenda tais atos como chamados de socorro, e não apenas como ações disruptivas ou criminosas.
Referência
BERGERET, Jean. Fraqueza e violência no drama do depressivo contemporâneo. Rio de Janeiro: Atheneu, 1991. p. 203.




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