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Borderline, bipolaridade e depressão: algumas diferenças essenciais na prática clínica.

  • CARLOS MONTE
  • 1 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

A fronteira entre o transtorno de personalidade Borderline e o transtorno bipolar ainda gera confusão, tanto entre leigos quanto em ambientes clínicos. Isso ocorre porque, em momentos de aceleração emocional, o Borderline pode se assemelhar ao estado maníaco do bipolar. Essa aceleração não nasce, porém, de uma base neurológica típica da mania, mas de reações intensas a situações específicas, como sentir-se amado, apaixonado ou até mesmo angustiado diante de uma ideia ou pessoa.


Em nossa experiência clínica, observamos que o Borderline oscila entre excitação e tristeza de maneira rápida, dependendo diretamente das circunstâncias ambientais e relacionais. Enquanto o episódio depressivo maior no bipolar tem sintomas persistentes – como insônia ou hipersônia, fadiga intensa, culpa, pensamentos recorrentes sobre a morte e incapacidade de concentração – que se impõem independentemente de fatores externos, no Borderline esses mesmos sintomas aparecem conectados a eventos imediatos, desaparecendo quando há mudança no ambiente ou nas relações próximas.


No transtorno de personalidade Borderline, a depressão é marcada mais pelo vazio e pelo tédio do que pela lentificação psicomotora típica de quadros depressivos. A sensação predominante é de inutilidade e frustração perante objetivos não atingidos. A tristeza, quando presente, costuma ser fruto desse sentimento de vida sem sentido, e não um sintoma isolado.


Para ilustrar, lembramos o caso de Carolina (nome fictício), uma jovem de 17 anos que nos procurou após uma decepção amorosa. Ela relatava não conseguir sair da cama, sentindo-se “sem vida” e sem vontade de fazer nada, acreditando estar deprimida. Durante o atendimento, ficou claro que sua tristeza profunda estava ligada ao abandono que sentiu do namorado, que havia terminado a relação de forma repentina. Com o apoio psicoterapêutico e estratégias voltadas ao fortalecimento de sua autoimagem, Carolina pôde compreender que não se tratava de uma depressão clássica, mas de uma dor intensa por não conseguir suportar a sensação de vazio e fracasso relacional. Assim que estabeleceu novos projetos escolares e fortaleceu vínculos familiares, os sintomas diminuíram progressivamente, sem necessidade de intervenção medicamentosa naquele momento.


Outro aspecto importante é a diferença na piora dos sintomas ao longo do dia. Enquanto no bipolar a piora costuma ocorrer pela manhã, no Borderline ela tende a se acentuar à noite, momento em que o indivíduo se vê sozinho, sem objetos de apoio ou vínculos que preencham o vazio interno.


Em nossa prática, vemos que o tratamento medicamentoso também difere nos dois casos. Em pessoas com transtorno bipolar, os antidepressivos apresentam efeitos mais consistentes após algumas semanas, enquanto no Borderline seu efeito é limitado, sendo utilizados mais para controle de impulsividade do que para quadros depressivos.


Muitas vezes, a depressão no Borderline vem acompanhada de ansiedade, desespero e agitação. Essa condição revela a necessidade de um objeto de apoio – pessoa, ideia ou projeto – que reduza o sofrimento ligado à sensação de vazio. Diferente do bipolar, que pode permanecer deprimido mesmo cercado de apoio afetivo e profissional, o Borderline apresenta melhora significativa quando sente segurança relacional e estímulo para novos projetos.


Essas nuances ressaltam o cuidado necessário no manejo clínico dos pacientes Borderline, considerando que cada palavra de um terapeuta pode ganhar, na escuta desse paciente, um peso idealizado e desproporcional. Em nossa experiência, isso demanda atenção não apenas ao que dizemos, mas também à forma como cada paciente interpreta o que foi dito – pois o sofrimento, muitas vezes, está menos no mundo externo do que na maneira particular de experienciá-lo.




Referências consultadas:


Hegenberg, M. Borderline. Belo Horizonte: Artesan, 2021.


Bergeret, J. Fraqueza e violência no drama do depressivo contemporâneo. In: Narcisismo e Estados Limite. Lisboa: Escher, 1991

 
 
 

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