A Introspecção e a Escuta Psicanalítica
- CARLOS MONTE
- 22 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Por Evelyn Gomes Barbosa
O método de pesquisa preferido pelos fundadores da psicologia — e aquele que mais parecia oferecer resultados — era a introspecção: o exercício de voltar-se para dentro, descrevendo os conteúdos da própria consciência. Em uma análise, esse movimento ainda tem papel fundamental, embora existam abordagens, como a behaviorista, nas quais a introspecção não ocupa o primeiro plano. Isso faz sentido se pensarmos que muitos dos processos mentais se desenrolam para além daquilo que conseguimos acessar conscientemente.
Mas, na verdade, sempre que um paciente — ou alguém relacionado a uma pesquisa — relata o que está sentindo, descreve suas percepções sensoriais, procura dar forma em palavras àquilo que lhe causa dor, o que se está fazendo, de alguma maneira, é um exercício de introspecção. Não tenhamos dúvidas.
Vale lembrar aqui a citação do autor Christian Jarrett, que afirma:
“A introspecção continua a ser uma técnica válida, mesmo após a invenção dos scanners cerebrais.”
Normalmente, você entra em uma sala aconchegante, preparada para te receber. Há ali uma poltrona confortável, talvez um divã. Ou, mais modernamente, quando a sessão acontece em formato online, pede-se que o paciente se coloque em um lugar tranquilo, confortável, onde possa se ouvir e se perceber.
O psicanalista, então, costuma fazer uma pergunta fundamental:
“O que é que se passa em sua cabeça?”
“Você não quer me contar um pouquinho como está se sentindo?”
Atenção — isso não é uma armadilha. É, na verdade, o ponto de largada de uma sessão. E, por conseguinte, vai se somar às outras tantas que se seguirão. Estamos diante de uma versão moderna da introspecção, a mesma ferramenta de pesquisa preferida pelos pioneiros da psicologia no final do século XIX.
Lá, já em Os Princípios da Psicologia (The Principles of Psychology), livro escrito por William James em 1890, lê-se:
“A palavra introspecção praticamente não precisa de definição; ela significa, é claro, olhar para dentro de nossas próprias mentes e relatar o que ali descobrimos.”
Esses pesquisadores — entre eles Wilhelm Wundt, professor da Universidade de Leipzig, amplamente reconhecido por fundar o primeiro laboratório de psicologia experimental do mundo — submetiam-se a um extenso treino nesse método, que, de alguma forma, ainda utilizamos hoje.
Pode-se dizer que foi ali, através do Laboratório de Psicologia Experimental de Munique, que tudo se tornou ainda mais sistematizado. Entre seus objetivos estava o de segmentar a experiência consciente em partes constituintes. Embora isso pareça algo descomplicado, os debates metodológicos entre os precursores foram intensos.
Citemos, por exemplo, Edward Titchener, aluno dessa tradição, que propôs um sistema particularmente rigoroso, criado para evitar o que se chamava de erro de estímulo — a tendência de o observador fugir das experiências sensoriais brutas e descrevê-las já com uma carga interpretativa. Assim, diante de um estímulo como uma cadeira, o introspector deveria relatar as sensações de cor, textura e forma, e não apenas dizer “vejo uma cadeira”.
Esse método, longe de ser uma curiosidade histórica, ainda ecoa nas práticas clínicas contemporâneas. Pois o que faz o psicanalista ao início de uma sessão, quando pergunta “Como você está se sentindo?” ou “Quer me contar um pouco como foi sua semana?”, senão convocar o paciente ao exercício da introspecção?
Essas perguntas simples, quase cotidianas, abrem o espaço para o relato subjetivo — e, nele, para o trabalho de escuta. Cada palavra, cada pausa, cada frase dita pelo paciente é observada com atenção. A introspecção, nesse contexto, deixa de ser apenas uma técnica de pesquisa e se transforma em ferramenta de encontro: o encontro do sujeito consigo mesmo, mediado pela escuta analítica.
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Evelyn Gomes Barbosa (CRP 06/143.553) é psicóloga e psicanalista formada pela UNESP e pelo Instituto de Psicanálise de Bauru, com atuação no CAISM/UNIFESP e no Amborder - referência nacional em borderline.
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