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A escuta psicanalítica e o desafio clínico do paciente borderline

  • CARLOS MONTE
  • 8 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

Décio Tenenbaum, em seu artigo "Desafio 2.0: Abordagem Clínica das Psicoses e Estados Fronteiriços", chama atenção para que o fulcro, o objetivo-princípio da ação terapêutica psicanalítica, quando se fala do transtorno borderline, está na tentativa de ampliação do ego através do desenvolvimento das funções que, em tese, estariam atrofiadas. Isso resultaria no aumento da capacidade de mentalizar as experiências traumáticas e conter, por conseguinte, as experiências que lhes são correlatas.


Assim, se há um objetivo inicial de uma abordagem psicoterápica voltada ao paciente com transtorno de personalidade borderline, seria ajudá-lo a construir uma imagem de si — que ele em geral ignora — e dos objetos, de forma integrada e coerente. Em minha prática clínica, costumo chamar isso de desconfiguração: um estado de dissolução da unidade interna, em que o sujeito não reconhece a si mesmo nem consegue sustentar uma percepção estável do outro.


Para que esse processo possa ocorrer, o terapeuta precisa de uma escuta profundamente ativa, sensível ao modo pelo qual o paciente se defende de suas próprias experiências fragmentadas. O analista deve, com cuidado, apontar como essas defesas participam da construção de percepções distorcidas, revelando ao paciente que sua resistência maior é, muitas vezes, a de se deparar com suas próprias limitações. O primeiro passo, portanto, é o terapeuta reconhecer os padrões recorrentes de interação e compreender como eles se traduzem em representações internas que precisam ser transformadas.


Como afirma Otto Kernberg (1991, p. 100):


> “As representações de objeto internalizada dos pacientes borderline são caricaturas, ou seja, distorções fragmentadas que exageram certos traços e ignoram outros. As interações do paciente são moldadas por relações fantasiosas entre uma caricatura do self (como representação parcial do self) e do outro (como representação parcial de objeto), sob influência de um afeto particular. A tarefa do terapeuta na fase inicial é identificar as vias de objeto e self parciais predominantes e ajudar o paciente a uni-las em representações internas de self e de objeto mais realistas e equilibradas.”


A escuta clínica — normalmente semanal, cuidadosa, e, muitas vezes, acompanhada de uma condução integrada com o psiquiatra — enfrenta desafios particulares nos casos de transtorno de personalidade borderline. O comprometimento narcísico que caracteriza esses sujeitos dificulta o estabelecimento de uma transferência produtiva, impondo à técnica psicanalítica uma revisão constante de seus próprios limites e recursos.


Não nos esqueçamos que, na primeira metade do século XX, os chamados “casos-limite” eram frequentemente considerados, se não intratáveis, praticamente “não analisáveis”, como se dizia, e isso ocorria devido à impossibilidade de sustentar um enquadramento clássico. A dificuldade de vínculo, o ataque à relação transferencial e a instabilidade afetiva pareciam inviabilizar o método interpretativo tradicional. Com o tempo, porém, tornou-se evidente que o problema não residia no paciente, mas na ausência de uma técnica suficientemente adaptada a esse modo de funcionamento psíquico.


Mesmo hoje, o trabalho com o borderline impõe ao terapeuta um esforço constante: o de suportar a intensidade de uma transferência carregada de agressividade, medo e abandono. Essa pressão emocional é expressão direta do conflito interno do sujeito, e exige do analista uma escuta que acolha sem sucumbir, que contenha sem reagir.


Em nossa experiência clínica, especialmente no Amborder, observamos que o paciente borderline escapa ao enquadre analítico clássico. Com os limítrofes, a tradicional associação livre e a interpretação — ainda que sejam pilares da técnica — podem, se aplicadas de modo rígido, acentuar a desorganização do eu. Em vez disso, o terapeuta deve privilegiar a construção da capacidade de elaboração, fortalecendo as funções egoicas antes de permitir um mergulho mais profundo nos conteúdos inconscientes.


Como muito bem observa Tenenbaum (2007):


> “(...) não se deve favorecer a entrada de mais processos primários de pensar na consciência enquanto não houver ego suficientemente forte para levar adiante o trabalho de elaboração. Cabe ao analista a administração desse processo, caso contrário, a consequência costuma ser uma nova desorganização, o aprofundamento da desorganização em curso, ou alguma reação negativa do paciente em relação ao analista.”


Portanto, a psicoterapia psicanalítica de pacientes borderline busca, ao longo do tratamento, o desenvolvimento da função egoica, promovendo a substituição das identificações patógenas por identificações mais saudáveis. O trabalho clínico consiste em compreender e elaborar as defesas, favorecendo o surgimento de mecanismos adaptativos mais maduros e funcionais.


Trata-se, enfim, de propiciar ao sujeito a possibilidade de ingressar em modos de funcionamento psíquico mais elaborados, permitindo-lhe avançar em direção a formas mais integradas de relação com o outro — e consigo mesmo. A terapia, nesse sentido, não é apenas o espaço de fala, mas o território de reconstrução simbólica do eu fragmentado, onde o analista, com delicadeza e firmeza, acompanha o paciente na travessia entre o caos interno e a possibilidade de habitar-se de modo mais coeso.


REFERÊNCIAS


KERNBERG, O. Psicoterapia psicodinâmica de pacientes bordeline. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.


TENENBAUM, D. Desafio: abordagem clinica das psicoses e estados fronteiriços. XXI Congresso Brasileiro de Psicanálise. Porto Alegre, 09 a 12 de maio de 2007.


Evelyn Gomes Barbosa (CRP 06/143.553) é psicóloga e psicanalista formada pela UNESP e pelo Instituto de Psicanálise de Bauru, com atuação no CAISM/UNIFESP e no Amborder - referência nacional em borderline.



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