TRANSTORNO DE PÂNICO. A neurose de angústia na teoria freudiana.
- 12 de mar.
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Entre os diversos conceitos que estruturam a teoria psicanalítica, poucos são tão relevantes para compreender certos sofrimentos contemporâneos quanto o conceito de angústia desenvolvido por Sigmund Freud. Em muitos contextos clínicos atuais, experiências que recebem o diagnóstico de transtorno de pânico podem ser compreendidas de maneira mais profunda quando revisitamos a formulação freudiana da chamada neurose de angústia.
Este texto apresenta alguns dos elementos fundamentais dessa teoria, tomando como referência contribuições da psicanálise clássica e comentários contemporâneos sobre o conceito de neurose de angústia.
A descoberta da realidade psíquica
No final do século XIX, Freud iniciou suas investigações clínicas em um momento em que predominavam explicações médicas baseadas apenas em modelos neurofisiológicos. Acreditava-se que muitos sintomas nervosos poderiam ser compreendidos exclusivamente como disfunções do sistema nervoso. Com o avanço de suas observações clínicas, porém, Freud percebeu que muitos sintomas carregavam significados psíquicos. Eles pareciam expressar conflitos, experiências e afetos que não encontravam outra forma de elaboração.
A historiadora e psicanalista Élisabeth Roudinesco descreve essa virada teórica ao afirmar que Freud deu ao paciente a possibilidade de falar e de ser escutado, reconhecendo no inconsciente uma estrutura de sentido que participa da formação dos sintomas.
Essa mudança permitiu compreender o corpo não apenas como um organismo biológico, mas também como um corpo investido pela libido, atravessado pela história subjetiva de cada indivíduo.
Libido e economia psíquica
Na teoria freudiana, a libido é uma energia psíquica que se liga às representações e aos objetos de desejo. Freud propôs compreender o funcionamento do psiquismo também a partir de um ponto de vista econômico, isto é, considerando a circulação e a distribuição dessa energia. Quando a excitação psíquica encontra caminhos de simbolização e elaboração, ela pode ser integrada à vida psíquica. Quando isso não ocorre, entretanto, essa energia pode buscar outras formas de descarga, muitas vezes por meio do corpo.
Foi nesse contexto que Freud começou a descrever o quadro clínico que chamou de neurose de angústia.
A separação entre neurastenia e neurose de angústia
No final do século XIX, muitos sintomas nervosos eram reunidos sob o diagnóstico de neurastenia, conceito difundido pelo médico George Miller Beard. Freud observou, porém, que parte desses quadros apresentava características específicas que não se encaixavam perfeitamente nessa classificação. Em 1894, ele propôs separar um conjunto particular de sintomas e denominá-lo neurose de angústia. Em suas palavras:
“A mais notável de todas as mudanças será introduzida se decidirmos destacar da neurastenia a síndrome que proponho descrever. Clinicamente, os sintomas dessa síndrome relacionam-se de modo muito mais estreito e indecifível que com os da neurastenia genuína (...) Chamo esta síndrome de neurose de angústia, porque todos os seus componentes podem ser agrupados em torno do sintoma principal da angústia.” (FREUD, 2.023)
Essa distinção teve grande importância para a construção posterior da psicopatologia moderna. Entre os fenômenos descritos por Freud está a chamada expectativa ansiosa, um estado persistente de apreensão no qual o sujeito vive com a sensação de que algo ruim pode acontecer a qualquer momento. Em determinadas situações, essa tensão pode intensificar-se abruptamente e transformar-se em um ataque de angústia. Durante esses episódios podem surgir manifestações físicas intensas, como:
palpitações cardíacas
sudorese
tremores
falta de ar
vertigens
sensação de desmaio
medo intenso de morrer ou perder o controle.
Esses episódios são muito semelhantes ao que hoje a psiquiatria descreve como ataque de pânico. A angústia e suas manifestações corporais Freud observou que a angústia frequentemente se expressa através do corpo. Alterações cardíacas, dificuldades respiratórias, distúrbios digestivos, vertigens e sensações de fraqueza podem surgir durante as crises.
Em muitos relatos clínicos, os pacientes descrevem episódios inesperados em locais cotidianos — supermercados, bancos ou ruas movimentadas. A experiência costuma ser súbita e profundamente perturbadora, levando a pessoa a buscar ajuda médica imediata. Essas manifestações mostram como o corpo pode tornar-se o palco no qual conflitos psíquicos encontram uma forma de expressão.
O mecanismo da neurose de angústia
Segundo Freud, o ponto de partida desse quadro consiste em um acúmulo de excitação somática que não consegue ser suficientemente elaborado pelo psiquismo. Quando essa excitação não encontra vias adequadas de simbolização, ela pode transformar-se em angústia. Em sua primeira teoria da angústia, Freud compreendia esse processo dentro de uma perspectiva econômica: uma energia psíquica não elaborada descarrega-se de forma relativamente desorganizada. O psicanalista Jean Laplanche descreve essa formulação como uma teoria econômica da angústia, na qual a libido desligada de suas representações pode reaparecer sob a forma de angústia.
Assim, a angústia pode ser compreendida como uma energia libidinal que perdeu sua ligação com representações psíquicas, transbordando no corpo quando não encontra caminhos de elaboração simbólica. Nesse primeiro momento da teoria freudiana, o corpo erógeno — isto é, o corpo já investido pela libido — ocupa lugar central na compreensão dos sintomas.
A atualidade da descrição freudiana
A descrição clínica realizada por Freud apresenta notável proximidade com aquilo que hoje é definido pela psiquiatria como transtorno de pânico. Mesmo tendo sido formuladas no final do século XIX, muitas observações clínicas freudianas continuam extremamente atuais. Os ataques súbitos de angústia, acompanhados por sintomas corporais intensos e sensação de perigo iminente, permanecem sendo descritos de forma muito semelhante na clínica contemporânea. Essa convergência mostra a precisão da observação clínica realizada por Freud e a importância de sua contribuição para a psicopatologia.
A escuta clínica e o cuidado psicanalítico
Na clínica psicanalítica contemporânea, o tratamento da angústia não se limita à eliminação dos sintomas. Ele busca compreender os conflitos, experiências e histórias que participam da sua formação. A escuta cuidadosa da singularidade de cada pessoa permite construir caminhos de elaboração psíquica para aquilo que, antes, aparecia apenas como sofrimento corporal. Esse trabalho clínico exige sensibilidade, formação teórica rigorosa e atenção constante à história subjetiva de cada paciente. É justamente nesse ponto que o trabalho clínico de profissionais comprometidos com a escuta psicanalítica se torna fundamental.
A psicóloga e psicanalista Evelyn Gomes Barbosa desenvolve seu trabalho clínico a partir dessa perspectiva, buscando oferecer um espaço de escuta cuidadosa e respeitosa para pessoas que atravessam experiências de angústia intensa, crises de ansiedade ou episódios de pânico. A clínica psicanalítica permite que esses sintomas sejam compreendidos não apenas como eventos isolados, mas como expressões de processos psíquicos que podem ser elaborados ao longo do tratamento.
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Referências
FREUD, Sigmund. "Sobre os fundamentos para destacar da neurastenia uma síndrome específica denominada neurose de angústia" (1895). In: Obras Completas. Vol. III. São Paulo: Cia das Letras, 2.023.
ROUDINESCO, Elizabeth. "Por que a psicanálise?". São Paulo: Zahar, 1999.
MINERBO, M; CAMPOS, E. M. P. Atendimento psicanalítico do transtorno do pânico. Neurose de angústia. São Paulo: Ed. Zagodoni, 2017.
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Evelyn Gomes Barbosa (CRP 06/143.553) é psicóloga e psicanalista formada pela UNESP e pelo Instituto de Psicanálise de Bauru, com atuação no CAISM/UNIFESP e no Amborder - referência nacional em borderline.

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