Memória emocional, repetição e intensidade psíquica no espectro borderline.
- 25 de fev.
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Atualmente tenho trabalhado com frequência com pacientes situados no espectro do transtorno borderline. Trata-se de um funcionamento psíquico marcado por grande intensidade emocional, oscilações abruptas nos vínculos e, sobretudo, uma sensibilidade extrema às experiências de separação e rejeição.
Recentemente, um paciente me disse uma frase que, de formas diferentes, já ouvi outras vezes nesse tipo de organização psíquica: “Eu sei que você não fez nada demais… mas parece que eu já vivi isso antes. Parece que vai acontecer de novo.”
A situação concreta era simples: eu havia precisado remarcar uma sessão. No entanto, a reação afetiva era muito maior do que o fato justificava.
Do ponto de vista estritamente racional, o paciente sabia que não se tratava de abandono. Mas, do ponto de vista emocional, algo muito antigo havia sido ativado. É aqui que a reflexão freudiana sobre o falso reconhecimento e o retorno do recalcado pode nos ajudar. Em 1914, no ensaio “Sobre o fausse reconnaissance (déjà raconté) no trabalho psicanalítico”, Freud descreve fenômenos nos quais a sensação subjetiva de familiaridade não corresponde a um evento objetivo já ocorrido, mas ao retorno de um conteúdo psíquico previamente reprimido.
Ele escreve:
“Depois que se conseguiu, contra todas as resistências, fazer o paciente aceitar o evento reprimido de natureza real ou psíquica, reabilitando-o, por assim dizer, o paciente diz: ‘Agora tenho a sensação de que sempre soube disso.’”
No funcionamento borderline, muitas vezes não estamos diante de uma lembrança organizada em narrativa clara. O que retorna não é uma memória estruturada, mas um estado afetivo. Uma tonalidade emocional antiga que invade o presente com intensidade total. A experiência atual, uma ausência, um atraso, uma divergência, toca um núcleo primitivo de insegurança vincular. O sujeito não diz apenas “isso me lembra algo”. Ele vive como se estivesse novamente naquela situação original de desamparo.
Nesse sentido, não se trata exatamente de um déjà-vu clássico. Trata-se de uma repetição afetiva. O passado não é lembrado, é reatualizado. Freud já indicava que a sensação de familiaridade pode estar ligada a algo que já existia no aparelho psíquico, mas não pôde ser integrado à consciência. No espectro borderline, muitas experiências precoces de instabilidade ou imprevisibilidade relacional permanecem como registros emocionais pouco simbolizados.
Quando não há simbolização suficiente, o afeto retorna de forma bruta. Por isso, na clínica, é fundamental ajudar o paciente a diferenciar: O que pertence ao presente do que está sendo reativado do passado. Esse trabalho não consiste em invalidar a emoção (“você está exagerando”), mas em contextualizá-la. Em construir uma ponte entre experiência atual e história subjetiva. À medida que a pessoa consegue reconhecer que a intensidade emocional tem raízes anteriores, algo começa a se reorganizar. O que era vivência de abandono iminente passa a ser compreendido como reativação de uma memória emocional.
E, gradualmente, a frase muda.
Em vez de “isso vai acontecer de novo”, surge algo diferente: “Eu sei que isso me toca porque já doeu antes.”
Essa mudança é pequena na forma, mas profunda na estrutura psíquica.
O trabalho terapêutico, nesses casos, é justamente favorecer a simbolização da experiência emocional. Transformar repetição em narrativa. Transformar intensidade em compreensão.
Quando o afeto encontra palavra, ele deixa de dominar e passa a ser integrado. E essa integração é, talvez, um dos eixos centrais do tratamento no espectro borderline.
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Referência bibliográfica
Freud, S. (1914). Sobre a fausse reconnaissance (o 'déjà raconté') no trabalho psicanalítico. In: Totem e Tabu, Contribuição à História do Movimento Psicanalítico e outros textos (1912–1914). Obras Completas, vol. 11. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras.
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Evelyn Gomes Barbosa (CRP 06/143.553) reside na cidade de São Paulo, é psicóloga e psicanalista formada pela UNESP e pelo Instituto de Psicanálise de Bauru, com atuação no CAISM/UNIFESP e no Amborder - referência nacional em borderline.
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