Quando a memória parece nos enganar. Um episódio clínico.
Recentemente, me vi diante de uma questão clássica da psicanálise, estudada por Freud em 1914 no ensaio “Sobre a fausse reconnaissance (o déjà raconté) no trabalho psicanalítico”. Uma paciente, após me trazer uma informação absolutamente crucial para a compreensão de seu caso, algo que reorganizava profundamente o sentido de muitos conflitos que vínhamos trabalhando, emendou com naturalidade: “Mas eu já tinha te contado isso.”
Minha surpresa foi imediata.
A informação era tão central, tão decisiva para o estudo de seu caso, que eu tinha certeza de que ela não me havia contado anteriormente. Se tivesse contado, certamente teria sido ponto de partida para uma elaboração minuciosa.
Não transformei aquilo em uma disputa. Apenas ponderei, com cuidado, que talvez ela ainda não tivesse relatado esse conteúdo. E seguimos. Não me apressei em provar nada. Continuei escutando.
Ao longo das sessões seguintes, elaboramos com cautela os afetos envolvidos, as associações que surgiam e as resistências que apareciam sempre que nos aproximávamos do tema. Pouco a pouco, a própria paciente começou a perceber algo importante: ela já havia pensado diversas vezes em me contar aquilo. Já havia ensaiado mentalmente essa fala. Já havia se aproximado do assunto, e recuado.
Chegamos, então, à conclusão de que, de fato, ela não havia me contado antes.
Mas havia desejado contar.
E aqui está o ponto descrito por Freud: no fenômeno do déjà raconté (o “já contado”), o sujeito confunde a lembrança da intenção de falar com a lembrança de ter falado. O conteúdo não era novo dentro dela. Já estava presente, já circulava internamente, já provocava angústia. O que era novo era a possibilidade de dizê-lo.
O que chamamos de falso reconhecimento é justamente essa sensação de familiaridade aplicada a algo que, na realidade objetiva, ainda não havia ocorrido. A sensação é verdadeira, no entanto, seu objeto está deslocado. A memória, nesse caso, não estava falhando. Estava revelando a existência de uma resistência que, até então, impedira que aquele conteúdo alcançasse a palavra.
Não é raro que os momentos mais importantes de um processo terapêutico venham acompanhados dessa sensação de familiaridade. Como se o sujeito dissesse: “Isso sempre esteve aqui.” E, de certo modo, esteve mesmo — mas sem forma, sem nome, sem reconhecimento.
A psicanálise nos ensina que a memória não é um arquivo neutro. Ela é atravessada por afetos, defesas e desejos. Às vezes, aquilo que parece um simples lapso é, na verdade, o sinal de que uma barreira interna começou a ceder.
E é nesse ponto que o trabalho analítico ganha profundidade.
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Referências bibliográficas
Freud, S. (1914). Sobre a fausse reconnaissance (o "déjà raconté") no trabalho psicanalítico. In: Totem e Tabu, Contribuição à História do Movimento Psicanalítico e outros textos (1912–1914). Obras Completas, vol. 11. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras.
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Evelyn Gomes Barbosa (CRP 06/143.553) atualmente reside na cidade de São Paulo, é psicóloga e psicanalista formada pela UNESP e pelo Instituto de Psicanálise de Bauru, com atuação no CAISM/UNIFESP e no Amborder, referência nacional em borderline.
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